Devemos ao rigor burocrático dos holandeses, representado pela competência de um notário do século XVII, a descrição completa dos livros que continham a Biblioteca de Spinoza. Mesmo que para nós esta “descrição”, ainda que minuciosa, pareça problemática, pois se perdeu há muito a referência dos livros ali descritos, tal inventário revela-se poderoso instrumento para a localização das possíveis fontes do spinozismo, para a indicação e/ou a confirmação de referências – até então somente pressupostas – nas obras de Spinoza. Além disso, possibilita-nos ter uma imagem do universo cultural do pensador holandês, bem como de seus amigos e conterrâneos do século XVII.
No entanto, não devemos ignorar que por mais minucioso e útil que seja o inventário dos livros de Spinoza, dado a dificuldade em se adquirir livros em sua época devido ao alto custo dos mesmos, acrescida da conhecida situação financeira de Spinoza – no mais das vezes, precária –, não podemos afirmar de forma absoluta que a ausência deste ou daquele livro ou autor em sua biblioteca implicaria necessariamente no desconhecimento ou mesmo na ignorância por parte de Spinoza deste livro ou deste autor. A título de ilustração desta limitação, ressaltemos que na Carta 30 a Henry Oldenburg, Spinoza faz referência a um livro que não se encontra descrito em sua biblioteca, e, no entanto ele o teve nas mãos, conforme descrito logo no início: “O Mundo Subterrâneo de Kircher, eu vi na casa do Senhor Huygens, [...]”. (Ep30, In: Spinoza. Correspondência. Introducción, traducción, notas y índice de Atilano Domínguez. Madri: Alianza, 1988, p. 228).
O inventário das obras da Biblioteca de Spinoza foi pela primeira vez descrito pelo spinozista alemão Jacob Freudenthal, em sua obra Die Lebensgeschichte Spinozas in Quellenschriften, Urkunde und nicht-amtlichen Nachrichten, publicada em Leipzig, Veit 1899. Atilano Domíinguez reproduz este inventário em sua obra Biografías de Spinoza, publicado em Madrid no ano de 1995 pela Alianza Editorial.
Livros In Folio:
1. Buxtorfij Biblia twee Solumina [sic] cum Tiberiade [Volumina]. [1618][1].
2. Tremellii N. T. cum interpretatione Syr. typis Ebr. 1569.
3. Lexicon Scapulae, 1652. Lugd.
4. Tacitus cum notis Lipsii Antverp. 1607.
5. Livius, 1609. Aureliae.
6. Longomontani Astronomia danica cum appendice de Stellis Novis et Cometis, 1640 Amstel.
147. Velthuysius de Usu rationis in Theologia. [1667 (?)].
148. Euclides. [s. d.].
149. Ovidii Metam. Tom. II. [1629].
150. Obra devota la Cuna. [Francisco de Quevedo, 1634].
151. Stenonis Observ. anat. [1662].
152. Phrases Virgil. et Horat. ( ?).
153. Virgilius: (Opera). [1671].
154. Ephemerides. [1554].
155. Pharmacopaea Amstelred. [1651].
156. Historie van Karel de II. [1660].
157. Tacitus. [1643].
158. Elementa Physica. [1669].
159. Obras de Góngora. [1644].
[1] As datas colocadas entre colchetes não estão na lista original, foram por nós acrescentadas, conforme consta na edição de Atilano Domínguez (Biografías de Spinoza).
Para citar e/ou incluir este texto em Referências Bibliográficas, deve-se adotar o modelo abaixo, conforme as normas da ABNT prescrevem (não esquecer de atualizar a data para a de seu acesso):
FRAGOSO, Emanuel Angelo da Rocha. Biblioteca do Spinoza. Disponível em: <http://www.benedictusdespinoza.pro.br/4939/14760.html>. Acesso em: 09 abr. 2007.
VI. Por Deus entendo o ser absolutamente infinito, isto é, a substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime a essência eterna e infinita.
Explicação:
Digo que é absolutamente infinito, e não que é infinito no seu gênero; porquanto ao que somente é infinito no seu gênero, podem negar-se-lhe infinitos atributos; e, pelo contrário, ao que é absolutamente infinito pertence à respectiva essência tudo o que exprime uma essência e não envolve qualquer negação. (E1Def6)