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ANPOF 2006

Nesta seção estão a relação dos trabalhos e os seus respectivos resumos, aprovados para apresentação pelo Grupo de trabalho Benedictus de Spinoza no XII Encontro de Filosofia da ANPOF, realizado em Salvador, Bahia nos dias 23 a 27 de outubro de 2006.

RELAÇÃO DE TRABALHOS APRESENTADOS NO XII ENCONTRO DE FILOSOFIA DA ANPOF

HORÁRIO ATIVIDADES
 
Moderador da Sessão: Emanuel Angelo da Rocha Fragoso
08:00 vago

08:30 André dos Santos Campos (Universidade de Lisboa - PT)
As "duas democracias" na filosofia de Spinoza

09:00 Alex Leite (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - Campus de Jequié – UESB)
O que é o verdadeiro bem no TIE de Spinoza?

09:30 André Martins (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ)
Spinoza e Nietzsche: compreendendo a dualidão

10:00 INTERVALO 

Moderador da Sessão: Emanuel Angelo da Rocha Fragoso
10:30 Daniel Santos da Silva (Universidade Estadual do Ceará - UECE)
O Homem é o que mais Convém ao Homem

11:00 Gabriel Cid de Garcia (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ)
Ontologia e expressividade: uma estética da imanência entre Spinoza, Nietzsche, Deleuze e Pessoa

11:30 Henrique Piccinato Xavier (Universidade de São Paulo – USP)
Eternidade sob a duração das palavras. Simultaneidade, geometria e infinito na Ética de Espinosa

12:00 Jefferson Alves de Aquino (Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA)
Tempo e Eternidade: Vicissitude e Geometria a partir da Ethica de Spinoza

12:30 INTERVALO DE ALMOÇO 

Moderador da Sessão: André Martins
14:00 Emanuel Angelo da Rocha Fragoso (Universidade Estadual do Ceará - UECE)
O conceito de liberdade na Ética de Benedictus de Spinoza

14:30 Luís Carlos Silva de Sousa (Universidade Estadual do Ceará – UECE/ Instituto Teológico-Pastoral do Ceará – ITEP)
Spinoza e a questão dos milagres

15:00 Maria Tereza Mendes de Castro (Universidade Estadual do Ceará - UECE)
O Conceito de Conhecimento através do pensamento de Benedictus de Spinoza

15:30 Ruy de Carvalho Rodrigues Junior (Universidade Estadual do Ceará - UECE)
O desejo e o trágico em Spinoza e Schopenhauer

16:00 INTERVALO 

Moderador da Sessão: Emanuel Angelo da Rocha Fragoso
16:15 Márcia Patrizio dos Santos (Université de Picardie Jules-Vernes d'Amiens – UPJVA)
A importância ontológica do corpo e a impossibilidade

16:45 Paulo Domenech Oneto (University of Georgia – UGA)
Spinoza e a passagem ao político

17:15 Maria Luísa Araújo de Oliveira Monteiro Ribeiro Ferreira (Palestra)
(Universidade de Lisboa - PT)
Determinismo e Salvação em Espinosa – o papel do corpo

18:15 INTERVALO com INTERVENÇÃO CULTURAL (NO OTHON)

Resumos dos Trabalhos aprovados para apresentação (ordem alfabética)

André dos Santos Campos

As "duas democracias" na filosofia de Spinoza

É conhecida a afirmação de Spinoza segundo a qual a democracia é a mais natural forma de governo. Contudo, não há em Spinoza um tratamento unitário da democracia. No TTP, a democracia é menos um regime político tipificado que um modelo de constituição e organização do Estado mais potente: a democracia é assim a estratégia por excelência de construção do Estado absoluto. Os objetivos do TTP, no entanto, e uma ligação ao pensamento político próprio de uma tradição ainda com inspirações de uma estrutura transcendente, não permitem uma maior elaboração do conceito de democracia. Com a passagem para a finalização da Ética e o começo do TP, Spinoza acaba por introduzir sucessivamente dois conceitos-chave para aquilo que se será um desenvolvimento da democracia: o mimetismo afetivo e a multidão. Assim, no TP, a democracia terá um caráter muito mais amplo do que o do TTP. Com efeito, na sua última obra, Spinoza apresenta-nos duas vertentes distintas do conceito de democracia ou, se preferível, duas democracias. Por um lado, a) a democracia entendida como estratégia de construção do Estado absoluto ressurge novamente aqui, embora desta vez haja um esbatimento (confundido freqüentemente com um desaparecimento) da noção de contrato: o contrato da tradição contratualista desaparece por completo, é certo, mas ele volta a ser reedificado através de um reforço suplementar que permite perceber a força do consenso como registro de formação da democracia; o mimetismo afetivo e a multidão permitirão entender o que não é senão uma completa subversão do conceito de contrato político, em que uma dialética da obediência permite o nascimento da unidade do político a partir da força constitutiva da multiplicidade da multidão. O contrato político em Spinoza evolui como instrumento de compreensão da democracia entendida enquanto modelo estratégico único de constituição do Estado. Por outro lado, b) a democracia passa a ser encarada como um regime político tipificado: Spinoza recorre à antiga tripartição dos regimes políticos, incluindo a democracia como o mais potente dos regimes políticos possíveis. A democracia enquanto regime político, no entanto, ao contrário do que poderá suceder nos restantes regimes, não é um conceito estanque, definitivamente definido por instrumentos constitucionais de competência e execução: pelo contrário, é estabelecida uma ponte entre as duas democracias, na medida em que um Estado é tão mais natural quanto mais potente for, e o mais potente dos Estados é o verdadeiramente absoluto; se a primeira democracia está presente em todos os regimes políticos como veículo de constituição e legitimação, um Estado será tão mais potente quanto mais democrático for, e mesmo um regime político democrático como o descrito vagamente por Spinoza, enquanto puder crescer em potência (e em naturalidade), poderá tornar-se cada vez mais democrático. A democracia no TP, portanto, é um conceito próprio de uma filosofia política do futuro: a sua natureza acarreta a necessidade de uma construção progressiva da potência individual de cada um no seio da multiplicidade que cresce unitariamente, isto é, a democracia é o registro único onde se efetiva a crescente potenciação do indivíduo humano. Daniel Santos da SilvaO Homem é o que mais Convém ao HomemPodemos vislumbrar várias dimensões quando abordamos a Ética de Spinoza, desde uma ontologia, ponto fulcral para qualquer outra dimensão, até uma ética propriamente dita, ou seja, uma disciplina que pesquisa a fundamentação das relações afetivas do homem, em seu campo ativo ou mesmo passional. No autor mencionado, esse viés tem seus pressupostos em uma definição de substância que recusa qualquer transcendência divina, nivelando qualitativamente Deus e seus modos, entre eles o próprio homem.A relação de conveniência explicitada no título desse trabalho é uma passagem teórica pelos encontros que envolvem a essência ou natureza do homem, já entendido como expressão necessária da essência de uma substância única e eterna.A relação de conveniência se dá necessariamente na forma de alegria, aumento da potência de agir e de pensar do homem, que tem no próprio homem o que mais lhe convém. A constituição que determina o aumento ou a diminuição da potência do homem é a essência desse homem, sempre singular, o que por si só impede uma ética normativa, caso seja possível uma ética normativa; contudo, trata-se de uma única natureza, que se manifesta em seus modos por meio de seus atributos também eternos e necessários. Há, então, relações específicas que não se podem dar na forma de inconveniência, como entre dois homens guiados pela razão,porque a racionalidade segue toda a necessidade da natureza, e à medida que conhecemos melhor percebemos a necessidade absoluta determinada pelas leis eternas da natureza. Dois homens guiados pela razão são dois homens que vislumbram tal necessidade e que se reconhecem como semelhantes, dada toda uma ontologia da imanência pressuposta nessa análise. Aqui, os homens se aproximam não por retidão moral ou alguma ordem extrínseca ao desejo, mas apenas pelo reconhecimento da necessidade e para ampliar sua potência,a força de existir, o que é o próprio desejo.

Alex Leite

O que é o verdadeiro bem no TIE de Spinoza?

O objetivo desta comunicação é analisar em que sentido o bem verdadeiro, a alegria contínua e a potência do entendimento são anunciados no TIE. No início do Tratado da Reforma do Entendimento Spinoza se pergunta a respeito do bem que pode ser comunicado e permitirá a fruição da alegria contínua. Supomos que a noção de bem inquirida não corresponde a aquisição de nenhum objeto que esteja fora da própria atividade reflexiva. O bem é a descoberta de um movimento meditativo, que prepara as condições de produção das idéias segundo o quarto modo de percepção. De acordo com Lívio Teixeira esse movimento se expressará mais forte após o TIE, especificamente na Ética. Na Ética esse quarto modo de percepção tomará o sentido de terceiro gênero de conhecimento. O que será discutido então aqui é como no TIE Spinoza víncula a efetivação da potência do entendimento à experiência da alegria contínua; pois o que está em questão nesse elo, não é a aquisição de um objeto considerado o bem, mas, a conquista do pensamento como atividade produtora de idéias adequadas. O verdadeiro bem é a alegre expressão do dinamismo do entendimento, e isso é o que nos parece estar anunciado no TIE.

André Martins

Spinoza e Nietzsche : compreendendo a dualidão

Este artigo busca entender quais os pontos em que a filosofia de Nietzsche se aproxima da de Spinoza, ao ponto de aquele considerar este seu único precursor. Nietzsche também considerara Spinoza o único filósofo a lhe fazer companhia em sua solidão, ao ponto de que esta passaria então a ser uma « dualidão ». Buscaremos, assim, também entender em que sentido de estas duas filosofias se diferenciam de todas as demais na história da filosofia, e em que sentido poderíamos, a partir disso, considerá-las como precursoras da filosofia contemporânea.

Daniel Santos da Silva

O Homem é o que mais Convém ao Homem

Podemos vislumbrar várias dimensões quando abordamos a Ética de Spinoza, desde uma ontologia, ponto fulcral para qualquer outra dimensão, até uma ética propriamente dita, ou seja, uma disciplina que pesquisa a fundamentação das relações afetivas do homem, em seu campo ativo ou mesmo passional. No autor mencionado, esse viés tem seus pressupostos em uma definição de substância que recusa qualquer trancendência divina, nivelando qualitativamente Deus e seus modos, entre eles o próprio homem.A relação de conveniência explicitada no título desse trabalho é uma passagem teórica pelos encontros que envolvem a essência ou natureza do homem, já entendido como expressão necessária da essência de uma substância única e eterna.A relação de conveniência se dá necessariamente na forma de alegria, aumento da potência de agir e de pensar do homem, que tem no próprio homem o que mais lhe convém. A constituição que determina o aumento ou a diminuição da potência do homem é a essência desse homem, sempre singular, o que por si só impede uma ética normativa, caso seja póssível uma ética normativa; contudo, trata-se de uma única natureza, que se manifesta em seus modos por meio de seus atributos também eternos e necessários. Há, então, relações específicas que não se podem dar na forma de inconveniência, como entre dois homens guiados pela razão,porque a racionalidade segue toda a necessidade da natureza, e à medida em que conhecemos melhor percebemos a necessidade absoluta determinada pelas leis eternas da natureza. Dois homens guiados pela razão são dois homens que vislumbram tal necessidade e que se reconhecem como semelhantes, dada toda uma ontologia da imanência pressuposta nessa análise. Aqui, os homens se aproximam não por retidão moral ou alguma ordem extrínseca ao desejo, mas apenas pelo reconhecimento da necessidade e para ampliar sua potência,a força de existir, o que é o próprio desejo.

Emanuel Angelo da Rocha Fragoso

O conceito de liberdade na Ética de Benedictus de Spinoza

Na obra maior de Benedictus de Spinoza, sua Ética, a delimitação do universo ontológico, além de discernir os elementos constituintes de sua Philosophia em geral, resulta também como que numa moldura conceitual para o principal tema de sua ética: a liberdade. Com o intuito de explicitarmos as relações entre a ontologia spinozista e o conceito de liberdade, ressaltando a importância deste conceito para o sistema de Spinoza em geral e sua especificidade dentro da Ética, em particular, explicitaremos o conceito de liberdade nesta obra: a Definição 7 da Parte 1. Nesta definição, composta de duas partes distintas, Spinoza irá opor “coisa livre” (res libera) e “coagida” (coacta), consistindo a primeira naquela que “existe exclusivamente por necessidade de sua natureza e por si só é determinada a agir” e a segunda, “o que é determinado por outra coisa a existir e a operar de certa e determinada maneira”. A seguir, procederemos à análise crítica do conceito tradicional de liberdade como vinculada à vontade e à contingência, seja como poder de escolher ou como poder de decisão ou de se regular por um modelo, em relação às causas que determinariam a liberdade da vontade ou absoluto beneplácito, ou ainda, daquilo que a regula, visando a caracterização da liberdade como autonomia necessária no existir e no agir, ou como necessidade intrínseca, vinculada à essência e àquilo que dela decorre. Além disso, analisaremos também os desdobramentos desta definição inicial em suas relações com a vontade (finita ou infinita) enquanto faculdade, com o entendimento (finito ou infinito), enquanto ausentes da essência divina, e, por fim, com a própria necessidade.

Henrique Piccinato Xavier

Eternidade sob a duração das palavras. Simultaneidade, geometria e infinito na Ética de Espinosa

A pesquisa visa demonstrar que o bem verdadeiro (ou seja, a liberdade humana) almejado pela "Ética" de Espinosa é alcançado não apenas por meio da rearticulação e definição dos termos de uma nova ontologia por Espinosa, mas por meio da experiência da inserção do homem na totalidade da natureza infinita. Para o autor, o bem verdadeiro não são os meios e os caminhos rumo à explicação da natureza infinita, e sim o fruir de uma natureza humana que experimenta a si mesma e sabe a si mesma inserida no todo da Natureza infinita. Nossa hipótese de trabalho é que esse fruir do infinito exigiu que a Ética, enquanto texto, não buscasse explicar, mas ser um símile do próprio infinito, fazendo com que Espinosa buscasse um método expositivo de multiplicação “infinita” do próprio texto, para que o livro, em sua forma expusesse o infinito. O foco de nossa análise da textualidade da Ética será dado por meio de três articulações que se desdobrarão reciprocamente uma sobre a outra e sempre serão calcadas na relação entre forma e conteúdo: 1) a forma da escrita enquanto tal, relacionada à idéia de uma leitura sincrônica da Ética; 2) o modo de exposição da ontologia da substância una e absolutamente infinita; e, 3) uma análise da experiência de inserção do homem no seio do infinito, envolvendo os três gêneros de conhecimento (imaginação, razão e intuição) e suas respectivas relações com a textualidade da Ética, com especial ênfase na intuição.

Jefferson Alves de Aquino

Tempo e Eternidade: Vicissitude e Geometria a partir da Ethica de Spinoza

O objeto de nosso estudo é a discussão, a partir da filosofia de Spinoza, do conflito entre a esfera do eterno, entendida aqui como princípio de identidade na metafísica espinosana da ordem universal da Natureza com sua expressão formal em exposição geométrica, e a esfera histórica da finitude, compreendida como a inserção da vicissitude no interior daquela mesma geometria. A ruptura da formalidade presente nos vários comentários que dirimem o rigor matemático da exposição na Ethica ordine geometrico demonstrata de Spinoza expressaria a necessidade de compreender tal obra numa perspectiva maior, a de uma Modernidade que via surgir ascendentemente o conceito de História, mas ainda procurando submetê-lo a estruturas de eternidade. Ressaltemos que a despeito da herança do rigorismo matemático cartesiano, a Ética flutua entre a adoção de duas formas expositivas, deixando-se contaminar pela virulência de uma obra redigida sob a intenção polemista de libelo, o Tratado teológico-político. Apontaremos que tal discussão permite-nos a constatação de que, para além da interpretação de Spinoza como autor das definições e axiomas, proposições e demonstrações, é necessário vislumbrar igualmente o autor dos prefácios e apêndices, corolários e escólios, que acabam por tecer, conforme a expressão de Gilles Deleuze, uma Ética subterrânea. Procuraremos evidenciar que o filósofo de Voorburg acreditara na legitimidade do discurso geométrico como o mais apto para a tradução da ordem necessária e imanentista do mundo, sem que prescindisse da inserção de comentários que põem em risco a própria geometria, à medida que a interrompem e fragilizam (ao mesmo passo que a complementam). Se em Spinoza há o intento de um discurso autodemonstrativo, cuja logicidade interna é expressão da necessidade ontológica da substância única como totalidade, importa-nos discutir a realização plena ou não, de tal projeto. A validade da inquirição aparece-nos reforçada porque a nosso ver trata-se de se poder estender o caso do conflito possível em Spinoza entre estruturas de universalidade e necessidade (traduzidas pela ordem da geometria) e manifestações de contingência histórica e finitude (expressas no Tratado teológico-político e em excertos da Ética), à própria Modernidade do século XVII que prenunciava o advento da História como conceito discursivo primacial, muito embora ainda procurando cristalizá-lo a partir de uma sua submissão a uma ordem “eterna e necessária”. Assim como Spinoza procurara inserir a Escritura como Palavra de Deus no processo de sua gênese histórica, é preciso que compreendamos a Ética em sua historicidade, alargando inclusive tal percepção à compreensão de que tal embate entre estruturas de reprodução da ordem eterna e inserções em tal discurso da contextualização específica e precisa de um dado momento e de um dado enfrentamento, caracterizam a própria Modernidade do século XVII enquanto aquela que vê surgirem os primeiros indícios de uma História que mais tarde se traduzirá em conceito paradigmático como Razão imanente. Uma Modernidade que verá em Hegel a tentativa de síntese entre o Absoluto como auto-expositivo, mas a partir de sua própria historicidade.

Luís Carlos Silva de Sousa

Spinoza e a questão dos milagres

O problema é apresentado em três passos. (1) Expõe-se a crítica de Benedictus de Spinoza aos milagres, no sentido da tradição cristã. Em seu Tractatus Theologico-Politicus, Spinoza argumentou (a) contra a possibilidade de milagres e (b) contra seu valor como evidência para provar a existência de Deus. (2) É avaliada a defesa cristã dos milagres, contra Spinoza, a partir do teísmo molinista de William Lane Craig. (3) Faz-se uma análise projetiva sobre como Spinoza responderia às objeções de W. L. Craig.

Márcia Patrizio dos Santos

Homem racional sim; mas apenas?

A importância ontológica do corpo e a impossibilidade de abordagens exclusivamente espirituais sobre o que concerne o homem. Para Descartes o homem ocupa uma posição privilegiada na Natureza: só ele duvida, raciocina, decidi, escolhe, e opera tudo o mais que sua Mens (alma, mente, espírito) o permite. Isto porque só ele possui uma, fato que o distingue ontologicamente dos outros seres. Ou seja, esta posição de superioridade ontológica releva do que não é corporal. O Cogito confirma a essência humana como pensante e a superioridade do mundo espiritual sobre o físico. Posicionando-se explicitamente contra Descartes, Espinosa demonstra que o homem não pode ser nem se conceber sem seu corpo; ou seja, o corpo é constitutivo da essência do homem. Se a filosofia de Espinosa supera o cogito cartesiano e as dificuldades que este impõe à união corpo e mente nisto que ela apresenta o homem como essencialmente psicofísico, seria possível falar de razão e de emoção; de idéias e de sentimentos; de valores e de ética; de indivíduo e de sociedade; de política e de religião; e de tudo o mais que concerne o homem ignorando-se seu corpo? Tratar do homem considerando-se apenas sua mente ou seu ser exclusivamente espiritual é factível na filosofia cartesiana (mesmo que nem sempre); pois Descartes o apresenta como essencialmente ser pensante, capaz de existir mesmo sem a existência de seu corpo. Mas como admitir este tipo de abordagem em Espinosa, que apresenta o corpo como objeto da idéia constitutiva da Mente? Considerando-se que a Mente (1) não pode se conhecer sem o seu Corpo; (2) não pode existir previamente ao Corpo; e (3) tampouco pode ela dele se separar (pelo simples fato de não constituir um ente a parte), qualquer abordagem que se faça do homem deve-se considerar o seu Corpo, necessariamente. O mesmo deve se dizer da Mente; pois ela é a afirmação do Corpo; logo, dele inseparável. Razão pela qual Espinosa pode dizer que “se conhece a superioridade de uma Mente a outra pela superioridade do seu objeto – o Corpo” (EII.13: esc). Em outras palavras, Espinosa nega a dicotomia humana e apresenta um homem uno, tal qual é una a substância donde ele deriva. Se a essência do homem é psicofísica, ao se fazer sobre ele uma abordagem apenas mental, perde-se seu ser; pois uma essência partida, dividida; não é uma essência e, portanto, não pode dar o ser do homem, nem nada que lhe concerne. O objetivo geral desta comunicação é defender a coerência das explicações espinosistas sobre a constituição psicofísica humana contra a tese da composição corpo e alma cartesiana. O objetivo específico é demonstrar a relevância ontológica do Corpo e a unicidade necessária dele com a Mente, o que desautoriza toda e qualquer abordagem a-física de todo e qualquer assunto relacionado ao homem.

Maria Luísa Araújo de Oliveira Monteiro Ribeiro Ferreira

Determinismo e Salvação em Espinosa – o papel do corpo

A palestra incide sobre o clássico problema da possível conciliação entre determinismo e liberdade em Espinosa. Começarei por levantar alguns problemas quanto às relações entre determinismo, liberdade e salvação tentando superar aparentes discrepâncias. Depois centrar-me-ei na Ética e abordarei o modo tríplice como nesta obra se apresenta o corpo. Darei um especial relevo ao papel que no livro V o corpo desempenha na salvação individual e na conseqüente superação do determinismo. E devido à centralidade do corpo nesta abordagem, terminarei com algumas interrogações sobre salvação e diferença sexual. Deste modo a comunicação centrar-se-á em cinco pontos: Determinismo liberdade e salvação – relacionamento e problematização destes conceitos no pensamento espinosano. Três discursos sobre o corpo – as interpretações de Paul Ricoeur e de Jean-Pierre Changeux no que respeita ao conceito de corpo em Espinosa. Corpo e salvação – o determinismo absoluto dos corpos e a relação destes com as idéias. O papel do corpo humano na salvação. Uma salvação individual? Discussão deste problema com resposta afirmativa para o mesmo. Uma salvação sexuada? Algumas indicações quanto a textos de Espinosa que permitem responder a esta questão.

Maria Tereza Mendes de Castro

O Conceito de Conhecimento através do pensamento de Benedictus de Spinoza

A reflexão acerca da natureza dos nossos afetos despertou, no século XVII, o interesse do filósofo holandês Benedictus de Spinoza. Spinoza acreditava que através do conhecimento perfeito, o homem poderia alcançar sua felicidade e sua liberdade. Para o filósofo, o conhecimento estava diretamente ligado à ação humana, ou seja, à potência de agir. Portanto, à medida que o homem aumentava seu conhecimento, aumentava também sua potência de ação e, conseqüentemente, se libertava de suas culpas e medos oriundos de suas superstições. Este trabalho, portanto, terá como objetivo, destacar o conceito de conhecimento através do pensamento de Spinoza assim como refletir sobre a ordem eterna das coisas que conduz ao conhecimento perfeito. Neste processo, Spinoza elegeu regras de conduta provisórias que pudessem favorecer, de certa maneira, o equilíbrio emocional do homem em relação às coisas passageiras que apenas distraiam sua atenção. O apego excessivo à riqueza e à honra, assim como a busca desmedida do prazer, poderia desviar o intelecto de seu caminho reto. O método utilizado para esta evolução do conhecimento se converte num exercício reflexivo no qual, o ato de conhecer ocorre sempre contra um conhecimento anterior, destruindo, desta forma, qualquer idéia indevida. Esta sucessão finita de idéias é necessária para que se possa alcançar, por fim, a idéia verdadeira e distinta. Distinguir com clareza aquilo que é apenas um meio daquilo que é um fim em si mesmo é curar o intelecto das deformações que pedem trazer ao homem a sua infelicidade. A questão neste trabalho será analisada, essencialmente, a partir da leitura da obra Tratado da Correção do Intelecto, no qual Spinoza busca a solução desta questão através do que ele denomina intuição imediata, isto é, aquilo que é percebido somente por sua essência. Conhecer a essência é, na verdade, um ato de convicção, e não de suposição, que se dá em virtude da identificação entre alma e corpo.

Paulo Domenech Oneto

Spinoza e a passagem ao político

As questões acerca da imanência e dos valores como modos de pensar que se enraízam no desejo são dois pontos fundamentais da Ética de Spinoza. A afirmação da imanência se dá desde o livro I da obra. Em contraste com finalismo e mecanicismo, o spinozismo compreende a realidade como totalidade infinita de causas mantida por um princípio que perpassa cada coisa singular ou modo. Esse “princípio” é o próprio Ser ou substância, que é único. A substância é apresentada como causa de si e de tudo o que há ou pode haver. É nesse sentido que ela pode ser dita causa imanente. Por outro lado, como tudo o que existe, existe em si ou noutra coisa, está claro que todas as coisas existentes só podem existir na substância. Mas a substância não é somente causa eficiente da existência das coisas. Ela também é responsável pela essência delas. As diversas essências nada mais são do que desdobramentos singulares da essência da substância. Estabelece-se, assim, um liame que liga a essência absoluta da substância divina às essências relativas dos modos, e que permite definir tudo pela potência de existir. O livro III consiste na elaboração de uma teoria da afetividade baseada no princípio da potência. Somos ativos quando o que se produz é produzido a partir de nossa potência própria de agir. Esta potência é limitada por causas externas. É por essa razão que o filósofo fala da potência de existir (agir) de cada coisa como de um esforço (conatus), que se revela nas modalidades da “vontade”, do “apetite” e – no caso da humanidade – como desejo. A filosofia é uma compreensão da realidade que visa a estabelecer uma base para nos avaliarmos como causas adequadas ou inadequadas do que nos acontece. Ela permite, assim, fazer nascer um desejo pelo que efetivamente nos convém (nos é útil), desenvolvendo uma habilidade para nos relacionarmos ativamente com o que nos circunda. Essa apresentação do “bem” como útil – “tudo o que satisfaz ao desejo” –, aproxima Spinoza da concepção de um “egoísmo universal”. No entanto, desde o livro II, a afirmação do desejo individual se converte em algo mais. O desejo para si se torna desejo para outrem, com outrem. O que importa mostrar é que, longe de constituir um complemento acessório à discussão ontológica e ética, essa temática surge como um transbordamento necessário. Ao listar as funções de sua doutrina para a prática, o próprio Spinoza fala de sua importância para a vida social e para a constituição do Estado. A hipótese de uma analogia entre o modo de nos conduzirmos na natureza e o modo de conduzir o Estado deve ser rechaçada pois, como mostra um escólio do livro IV, há uma diferença capital entre os estados natural e civil. Na realidade, as questões em torno da sociedade política decorrem da ética. Elas fazem parte da própria prática filosófica, que exige uma “saída” da perspectiva individual para a coletiva. O motivo deste deslocamento está radicado na própria razão, como caberá mostrar.

Ruy de Carvalho Rodrigues Junior

O desejo e o trágico em Spinoza e Schopenhauer

O trabalho pretende, inicialmente, mostrar o significado, a centralidade e o alcance do conceito de “desejo” e “vontade” nas filosofias de Spinoza e Schopenhauer, bem como apresentar os pressupostos e os principais pontos de contato entre uma concepção “positiva” (Spinoza) e uma concepção “negativa” (Schopenhauer) de “desejo”. Em um segundo momento, discute-se a possibilidade e o sentido de uma aproximação entre as concepções filosóficas dos autores a partir do conceito de “trágico”. Para tanto, parte-se primeiramente do levantamento de algumas intuições de fundo (imanência, necessidade, unidade, intuição, circularidade etc), que tornaram possível, para ambos os filósofos, a “construção” de um “conceito” de natureza, i.e., de suas respectivas ontologias. Em seguida, faz-se a tematização dos principais problemas epistemológicos acerca do sentido e da validade de tais ontologias. Por fim, procura-se mostrar como e em que sentido tais ontologias e epistemologias já desde sempre partem de e apontam para uma filosofia do desejo, que se pode entender e denominar de trágica. Para isso, faz-se necessária uma discussão sobre as origens e o significado do conceito de “trágico” a partir da concepção schopenhaeuriana de Vontade e a verificação da possibilidade de articulação entre tal concepção e a concepção spinozista de Desejo. Somente então se realiza a apreciação dos relevantes pontos de convergência e de divergência entre os autores. Dessa forma, objetiva-se mostrar que, apesar das diferenças claras de ânimo, de estilo e de humor entre a Ética (Spinoza) e o Mundo como vontade e como representação (Schopenhauer), há uma cumplicidade fundamental entre as intuições constitutivas das cosmovisões de Spinoza e de Schopenhauer. Pretende-se ainda verificar se, apesar do lugar-comum da caracterização da filosofia schopenhaueriana de trágica e pessimista, não se poderia, mediante a aproximação da mesma com a filosofia de Spinoza, “mitigar” seu caráter pessimista e acentuar, por meio de sua lucidez e de sua dimensão estética, suas qualidades “terapêuticas” e libertárias. Por outro lado, talvez a aproximação de tais filosofias possa mostrar, na demolidora visão de mundo de Spinoza, a presença de uma dimensão verdadeiramente trágica e igualmente libertadora.


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Quanto mais perfeição uma coisa tem, tanto mais age e menos sofre; e, inversamente, quanto mais ela age mais perfeita é. (E5P40) 

  

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